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Livro de Números
- 17/06/2010
- Categorizado em: Estudo Dominical - Jovens e Adultos

Quarenta anos de miséria
Uma aventura gloriosa termina tragicamente
E aconteceu que, queixando-se o povo, era mal aos ouvidos do Senhor; porque o Senhor ouviu-o, e a sua ira se acendeu (11:1)
O livro de números começa com os israelitas preparando-se para uma grande aventura. Finalmente livres das algemas da escravidão, encaminham-se rumo à terra prometida. Mesmo assim, este livro, que se inicia em tom vigoroso, termina com um gemido de impotência. As semanas, os meses e finalmente os anos de trajeto por um deserto hostil parecem ter derretido o espírito de aventura do povo. Os israelitas se comportam como agente que perdeu o rumo. Com riqueza de detalhes, Números registra uma longa sequência de queixas e rebeliões.
Um desvio de quarenta anos
As primeiras queixas procediam dos estômagos, à medida que os israelitas começaram a desejar os temperos do Egito. Logo, a grande multidão se tornou massa revoltada. Pelo menos dez vezes, essa massa verbalizou o seu desespero ou se levantou em aberta rebelião. Eles se uniram contra seus líderes e protestaram contra Deus em voz alta. A rebelião se estendeu contra os sacerdotes; depois, contra os líderes militares; contra a família de Moisés; e, finalmente, contra Moisés mesmo.
O título deste livro, no original hebraico, não era "Números", mas sim, "No deserto". Esta frase tão compacta já expressa algo do sentido da desvalorização que tinham os israelitas. Rodeados de nações hostis, tiveram que marchar sob um sol abrasador por um deserto infestado de serpentes, escorpiões, sem falar da sequidão. Ainda hoje em dia, aqueles que visitam o deserto do Sinai assombram-se com o fato de toda uma nação ter perambulado por esse território durante tanto tempo.
Uma marcha através desse deserto deveria ter durado mais ou menos duas semanas. Em vez disso, porém, dorou quase quarenta anos. Números abarca todos os anos desse perambular e termina onde a viagem começara: no mesmo lugar (Cades) onde falhara a fé israelita. Dos milhares que saíram do Egito, só dois adultos, Josué e Calebe, chegaram à terra prometida.
Um tipo diferente de história
A maior parte das histórias antigas é muito diferente da deste livro. Narram feitos heróicos de grandes guerreiros e de líderes irrepreensíveis. Com uma monotonia quase cansativa, Números apresenta um quadro muito mais realista. Mostra os primeiros sintomas, toda a progressão e o trágico equívoco das queixas e da incredulidade.
Os israelitas perderam a fé não somente em si mesmos, mas também em seu Deus. Por causa disso, toda uma geração dessa nação ficou sepultada na zona conhecida como Península do Sinai.
A expressão "errar pelo deserto" aparece de vez em quando na Bíblia. Esse tempo de rebelião deixou marca indelével no povo hebreu. O que foi que saiu errado? O livro de Números nos foi dado para que soubéssemos a resposta. O apóstolo Paulo indica que esses fracassos "lhes sobrevieram como figuras, e estão escritos para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia" (I Coríntios 10:11-12).
O livro começa com uma longa descrição de um recenseamento e passa daí para listas de leis e rituais. Estes eram os registros oficiais de uma nação, e cada palavra tinha grande significado para os israelitas.
Diferentemente, porém, de Levítico, Números não é constituído essencialmente dessas descrições. O livro se concentra mais em narrativas, por entre as quais se entretecem leis e rituais. Os relatos são emocionantes, e alguns deles, como o de Balaão notáveis.
A ação em Números ocorre em três marcos ambientais diferentes: (1) os capítulos 1-14 tem início no mesmo local onde se concluiu Êxodo, ou seja, ao pé do Monte Sinai. (2) Os capítulos 15-19 abarcam um período de 37 anos, o período da peregrinação pelo deserto. O resumo feito por Moisés no capítulo 33 menciona 42 paradas no deserto, mas Números se ocupa de poucas delas. (3) Os capítulos 20-36 se ocupam de toda uma nova geração de israelitas, ocupada com os preparativos finais antes da invasão de Canaã.
Ao ler Números, ser-lhe-á útil ter em mente algum assunto específico, tal como o das murmurações, ou das rebeliões. Movimente-se através deste livro observando exemplos deste problema. As revoltas mais importantes ocorrem nos capítulos 11, 12, 13, 14, 16, 20 e 21, num total de dez acontecimentos. Preste atenção à causa de cada rebelião, e também à reação de Deus. Você é capaz de ver paralelos entre as experiências dos israelitas e as de seua própria vida?
Números nos oferece também uma oportunidade de refletir profundamente sobre a liderança de Moisés, mostrando-nos sua reação diante de cada crise. Uma ilustração de sua proeminência? O livro diz mais de 80 vezes que "falou Deus a Moisés". Identifique as qualidades, positivas e negativas, que o tornaram um líder tão eficaz.
Outras partes da Bíblia fazem referência a Números. Alguns dos salmos históricos, tais como os Salmos 78, 105 e 136, reformulam poeticamente estes acontecimentos.
Memoriais de uma nação
Lições objetivas incorporadas à vida nacional israelita
E Arão moverá os levitas por oferta de movimento perante o Senhor pelos filhos de Israel; e serão para servirem no ministério do Senhor (8:11)
Embora alguns trechos de Números possam parecer estranhos ao leitor moderno, este livro expressa claramente dois dos valores principais dos israelitas: a pureza e a santidade. Eles tinham que ser puros antes de se aproximarem de Deus. E foram chamados para serem exemplos de santidade para as outras nações. A necessidade de pureza e a santidade refletia-se no que os israelitas comiam, nas coisas que usavam e na forma como se conduziam diariamente.
Memoriais visuais
Deus separou certos grupos de pessoas como memoriais visuais da pureza e da santidade. Os levitas, que de alguma forma são equivalentes aos religiosos profissionais de nossos dias, ocupavam-se dos deveres religiosos formais (capítulos 3,4 e 8). Um grupo deles recolhia os objetivos sagrados quando tinham que mudar de acampamento, enquanto outros levavam as cortinas do tabernáculo e as peças da estrutura.
Números menciona outro grupo: os narizeus (capítulo 6). Estes cidadãos comuns se dedicavam a um regime extra de pureza. Não bebiam vinho e deixavam crescer o cabelo. Destacavam-se das demais pessoas por sua roupa diferente e pelo seu modo de viver.
Mas a santidade não se restringia a grupos especiais. Cada israelita participava das ofertas diárias, dos sacrifícios e dos dias festivos recomendados por Deus. Quando uma família trazia um bezerro e via como ele era abatido, dividido em pedaços e queimado no altar, ela se via obrigada a refletir. O pecado era algo sério e havia um grande abismo que os separava de Deus. De alguma forma, seja mediante um relato, um rito, um símbolo visual, Números expressa esse sentido de separação em quase todas as páginas. Ao aproximar-se de Deus os israelitas deveriam com todo o cuidado.
Suprimindo o abismo
O Novo Ttestamento falará, mais tarde, de um Deus que é nosso Pai, de quem podemos nos aproximar a qualquer momento, e que se interessa pelos detalhes pessoais de nossas vidas individualmente. Mas Números serve como importante fundo histórico e cultural para se entender esse tipo de relação. O livro mostra graficamente quão grande era o abismo entre as pessoas e Deus e nos ajuda a apreciar plenamente tudo o que Jesus Cristo fez ao estender uma ponte sobre esse abismo.
De que lado está Balaão?
Um profeta rebelde, uma mula que fala e um rei furioso
Então disse Balaque a Balaão: Que me fizeste? Chamei-te para amaldiçoar os meus inimigos, mas eis que inteiramente os abençoaste (23:11)
Em Números 22:24, temos uma das mais extraordinárias histórias de toda a Bíblia. Trata-se de uma mula que fala um hebraico perfeito e que mostra ter mais percepção do que um profeta. Um homem está no centro da narrativa, um misterioso personagem chamado Balaão.
Evidentemente, Balaão era assimn como o mago profissional de algum clã nômade, como ocorre com os ciganos. Sua reputação era impressionante: os reis vizinhos, alarmados com a presença dos israelitas, contrataram-no para que, utilizando-se de sua magia, ele obtivesse o favor dos deuses para com eles.
Aluga-se um profeta
Números nos dá suficientes detalhes para pintarmos um retrato colorido e dramático. Mesmo assim, Balaão permanece em volto nas brumas do mistério. Fica evidente que Deus decidiu falar por meio dele: Deus se comunicou diretamente com Balaão sete vezes. É igualmente óbvio que Balaão veio a ser um profeta obstinado, sujeito à ambição e ao suborno tentador. Tanto que até sua mula o repreendeu, no único relato bíblico em que aparece um animal falando. O anjo njão poupou elogios, mas não para Balaão e, sim, para a sua mula.
Balaão surge no cenário bíblico em solene ocasião orquestrada para amaldiçoar os israelitas, mas, ao invés de fazê-lo, Balaão pronuncia bençãos sobre eles e amaldiçoa os inimigos deles. Ele proferiu quatro mensagens que causaram grande furor, mas completamente diferentes das que balaque queria ouvir.
"Como amaldiçoarei o que Deus não amaldiçoa?", perguntou Balaão (Números 23:8). Suas profecias são magníficas e brilham em meio a cenas de cômica ironia. Balaão se mostrou cada vez mais ousado, passando da condição de mero feiticeiro à de firme profeta.
Profeta ou traidor?
Números 22-24 apresenta Balaão como um aparente "convertido". Tragicamente, as mudanças operadas nele foram temporárias. Na vez seguinte em que Balaão aparece na Bíblia, é visto como vítima fatal de uma incursão israelita. As condenações claras que aparecem em II Pedro 2:15, Judas 11 e Apocalipse 2:14 indicam que Balaão voltou rapidamente aos seus costumes traidores. Não podendo manipular o Deus dos israelitas de acordo com seus próprios propósitos, ele tentou manipular os próprios israelitas. Ele convenceu outras nações a que os seduzissem com práticas sexuais e com a adoração a deuses falsos. Sua atividade resultou na morte de 24 mil pessoas (Números 24:9). Alguns os chamam de "Judas do Antigo Testamento", e há entre os dois certos paralelos facilmente observáveis. Ambos chegaram suficientemente perto da verdade, a ponto de parecerem sinceros e fiéis. Durante certo tempo, ambos serviram ao Deus verdadeiro. Motivados, porém, pela ambição e pela avareza, renunciaram a Deus e voltaram-se contra ele, com resultados catastróficos.
Parte de uma batalha maior
Sete livros da Bíblia fazem referência a Balaão. A importância que se concede a ele neste episódio da a entender que o mesmo representava um fato de capital importância na relação dos israelitas para com as culturas pagãs. Os israelitas estavam a ponto de entrar numa terra em que a magia e a feitiçaria eram usadas como armas nacionais. Num lance irônico, Deus escolheu como porta-voz um feiticeiro pagão. Por meio dele, Deus repreendeu essas nações e os seus deuses.


muito obrigado!
sandro simas (Buzios)
Obrigado pela visita. Estaremos em breve disponibilizando estudos de todos os livros da bíblia.
IBCN